A técnica e o estilo na natação

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Imagine que nunca viu ninguém a nadar. Já viu golfinhos na água, peixes no aquário, baleias no oceano, mas imagine que nunca viu um ser humano a nadar. Vamos tentar inventar a natação a partir do zero, e verificar as diferenças entre técnica e estilo!

Aparentemente todos as criaturas marinhas se movem na água sem qualquer tensão, fluem como se fizessem parte dela. Se tentássemos definir os movimentos aparentemente sem qualquer esforço de peixes e alguns mamíferos na água, utilizaríamos expressões como:

  • Descontraído
  • Ritmado
  • Sem esforço
  • Fácil
  • Fluente
  • Natural

No entanto, quando a maioria dos nadadores entra na piscina e se junta à sua equipa para uma sessão de treino de natação, as palavras que dominam a maioria dos programas são:

  • Esforço
  • Tempo
  • Ritmo
  • Velocidade
  • Pernada
  • Saída
  • Braçada
  • Viragem

Se bem que aprender o significado e aplicação destes termos técnicos de natação seja importante, a longo prazo não é o que se faz na piscina que interessa, mas como se faz!

Logo desde a primeira braçada, antes da primeira volta, qualquer nadador (e treinador) tem que aprender a nadar com facilidade, com suavidade e sem esforço, com uma técnica fluída, descontraída e ritmada, e sem pressa para ver quem consegue fazer mais voltas em menos tempo.

Os treinadores de natação têm um ditado sobre a típica faixa etária dos nadadores: “eles fazem o trabalho rápido demasiado devagar, e o trabalho lento demasiado depressa“. Noutras palavras, vão para a piscina com o objectivo de nadar o mais que podem no menor tempo possível.

Sendo natural, compreensível e tentador concentrar-se no número de voltas nadadas e acumular o maior número de distância possível, a capacidade de nadar rápido e com facilidade em distâncias de competição está mais dependente da compreensão do movimento do nado do que do volume de treino realizado.

 

O modo como se nada (desenvolvendo um estilo único) é crítico, e qualquer argumento sobre volume de treino adequado – o que se faz – é secundário em relação à forma como se faz.

nadador-3Existem inúmeros programas de treino por todo o mundo, mas não é possível determinar um padrão comum na filosofia de todos eles. O volume de treino, a quantidade de viragens, o número de sessões por dia ou semana, a quantidade de saltos, etc., são incrivelmente diferentes e variáveis de programa para programa, e de treinador para treinador.

Por exemplo, a variação do volume de treino por semana nos diversos programas é considerável: alguns treinadores conseguem resultados de qualidade mundial com somente 30km por semana, ou até menos. Outros, também a treinar nadadores com desempenho ao mais alto nível, utilizam programas com uma média de 80 a 100km por semana, ou até mais! É uma diferença de 50km no volume de treino médio por semana, e ainda assim os atletas que treinam com estes programas filosoficamente tão diferentes conseguem uma diferença de apenas algumas fracções de segundo numa competição.

 

Existem alguns factores comuns presentes em todos os melhores programas, e algumas qualidades técnicas consistentes observadas em todos os grandes nadadores, que incluem:

  1. Estão relaxados na água;
  2. Concentram-se em deslizar através da água, em vez de “muscular” os movimentos;
  3. Respiram profunda e suavemente;
  4. Estão empenhados em melhorar técnicas como mergulhos, saídas, viragens e chegadas;
  5. Sentem-se confortáveis a nadar lentamente – em níveis de intensidade inferiores a 70% do máximo e a trabalhar em movimentos fáceis e descontraídos;
  6. Trabalham no desenvolvimento da velocidade real – mas de novo com movimentos relaxados, fáceis, e fluindo;
  7. Recuperação “significa” recuperação, ou seja, quando recuperam na braçada, visam relaxar completamente e manter suave a entrada da mão na água.
  8. Nos final das contas: volume de treino não é tudo!

Não se trata de um jogo de comparação de “o meu treino com o teu treino”. Maior distância não faz melhores nadadores, a não ser que essa distância seja completada com o foco em desenvolver as qualidades técnicas simples que sustentam todas as braçadas bem sucedidas.

 

Não perca tempo a desenvolver a técnica perfeita

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Michael Phelps e Bob Bowman (treinador)

Muitos nadadores e treinadores perdem tempo e energia a tentar desenvolver a técnica de natação “perfeita”. Viram o Michael Phelps na televisão, ficaram maravilhados com a forma como ele nada, e decidiram “tenho que nadar como ele”.

Esqueçam!

Em primeiro lugar não há uma técnica perfeita para todos os nadadores, de todas as idades e de todos os níveis de habilidade e experiência.

Em segundo lugar há uma grande diferença entre técnica e estilo. A técnica é uma lista de coisas simples que são comuns em todos os bons cursos de natação, enquanto que estilo é exclusivo do nadador individual, é a única maneira que o seu corpo encontra para se mover de forma eficiente e eficaz através da água.

Em terceiro lugar – acredite ou não – a técnica do Michael Phelps não é perfeita, não é a técnica da maioria dos melhores nadadores de todos os tempos, mas… é perfeita para eleNinguém consegue nadar como qualquer outra pessoa – esse é o seu estilo de natação. No entanto, todos podem aprender as noções básicas de técnica de natação eficiente, e treinar para aplicar os princípios da técnica eficiente para o seu próprio estilo de natação único.

 

Então o que é uma boa técnica? E qual a diferença para estilo?

Os princípios fundamentais de uma boa técnica de natação incluem conceitos tão simples como:

  1. Esteja ciente da importância da relação entre a cabeça e os quadris – o objetivo deve ser nadar numa posição relativamente “neutra” do corpo, ou seja, “postura de caminhada”;
  2. Mantenha as mãos suaves e os pés soltos e relaxados;
  3. Inspire completamente e expire completamente. Nunca prenda a respiração quando estiver a nadar, porque segurar a respiração cria tensão e a tensão é inimiga da eficiência na natação;
  4. Entre com a mão (catch) na água cedo, mantendo o seu braço e cotovelo perto da superfície, em seguida pressionando leve e suavemente com as pontas dos dedos e o pulso para iniciar a entrada;
  5. Os movimentos do braço devem começar leves e lentos, e acelerar durante o movimento;
  6. Mantenha-se relaxado e com uma recuperação fácil. Na natação, de cada vez que as suas mãos se movem para a frente chama-se “recuperação”.

O estilo do nado, por outro lado, é o que cada um faz – é o método individual e único de um nadador descobrir uma maneira de se mover através da água.

O estilo de um nadador baseia-se numa série de factores, incluindo a força, comprimento do braço, estabilidade do corpo, flexibilidade, mobilidade e proporcionalidade (por exemplo, comprimento do braço superior ao braço inferior), e uma variedade de outras coisas.

 

Resumindo:

  1. Se tivesse que inventar a natação para os seres humanos (sem nunca ter visto um ser humano a nadar) tendo como modelo a forma como as criaturas aquáticas se movem na água, provavelmente teria uma abordagem muito diferente em relação à que a maioria dos treinadores e nadadores utilizam agora;
  2. Concentre-se em mover-se através da água facilmente e sem esforço, com descontracção e movimentos suaves e controlados. O número de voltas pode vir depois! Tentar forçar a eficiência fazendo mais voltas do que qualquer outra pessoa não vai levar a resultados de competição;
  3. Não seja obcecado com as pequenas coisas. Não há nenhum modelo técnico perfeito para todos os nadadores. Não existe um “ângulo de inclinação da mão” perfeito para entrada na água. Não há uma posição de cabeça perfeita e certa para cada nadador. Aprenda os conceitos básicos e fundamentais do movimento eficiente na água, pratique-os consistentemente e permita que o nadador desenvolva o seu estilo de natação individual;
  4. Os programas de natação são muito diferentes em todo o mundo – especialmente quando se trata de filosofias relacionadas com volume de treino. No entanto, as coisas que levam ao sucesso são as mesmas em todos os lugares onde a natação é praticada;
  5. Se funciona para si, então funciona para si!

 

 

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